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Leia a entrevista com a professora Irene Rizzini, autora de Crianças e adolescentes em conexão com a rua: pesquisas e políticas públicas



Entrevista com a professora Irene Rizzini

Nesta entrevista, Irene Rizzini, autora de Crianças e adolescentes em conexão com a rua: pesquisas e políticas públicas, fala sobre sua trajetória em pesquisa social e políticas públicas voltadas para crianças e adolescentes em situação de rua. A autora também menciona algumas de suas inquietações e reflexões sobre a população jovem brasileira.

O livro “Crianças e adolescentes em conexão com a rua” reúne quase quatro décadas de pesquisa e defesa pelos direitos da criança e do adolescente. Você pode dividir com a gente um pouco dessa trajetória?

Esse é, talvez, um dos primeiros temas que eu comecei a pesquisar na minha carreira acadêmica, já na década de 1980, publicando o livro “Geração da rua”. Não digo que foi a primeira pesquisa sobre o assunto, mas é (muito) provável que, internacionalmente, tenha sido uma das primeiras pesquisas em que se aborda diretamente a população em situação de rua nas ruas. Eu não tinha noção de que estava fazendo uma coisa tão inusitada e que chamou tanta atenção ao redor do mundo, mas minha longa trajetória acadêmica, sempre se pautou por um trabalho de escuta muito atenta a grupos cujas vozes são com frequência ignoradas.

Eu pesquiso as crianças, aquelas que, por mais fortes que sejam, (estão) vivem muitas vezes sem referências afetivas próximas a elas - sem pais, familiares ou sem pessoas que sejam significativas na sua vida. Queria dizer que o material de pesquisa recolhido não serve somente para publicação em artigos acadêmicos, embora seja muito importante. Entendo que ele precisa retornar para quem se encontra em situação de maior sofrimento. Se é para retornar aos pais, nós retornamos aos pais; se é para retornar à favela e conversar com as lideranças daquela comunidade, a gente estará retornando e devolvendo o que foi recolhido e absorvido. Socializar o conhecimento sempre foi uma prioridade para mim. Por esta razão, venho atuando em pesquisa e extensão no espaço universitário a partir de centros de pesquisa e ação social, que é uma forma de atingir um número maior de pessoas.

O primeiro centro de pesquisa nasce em 1984, quando eu lecionava na Universidade de Santa Úrsula, já trabalhando com a população infantil, adolescente e juvenil antes da minha vinda à PUC-Rio em 2002. Era uma época difícil e ao mesmo tempo efervescente no Brasil, logo após os anos de ditadura que vivemos. Justamente no processo de Anistia e de redemocratização do país, nós criamos um centro de documentação e pesquisa com o objetivo de sistematizar a produção científica brasileira com foco sobre a população infantil e juvenil. Inclusive, durante os anos de ditadura, muito material havia se perdido.

O Centro de Documentações da Infância chegou a ter mais de dez mil documentos e serviu de base para muitos outros estudos em todo o país. Não havia internet como hoje, então as leis, desde a primeira constituição, de 1924 até hoje – que forma nossa base legis – tiveram que ser digitadas mesmo. A xerox existia, mas nem sempre era possível fotocopiar, pois diversos documentos que coletamos já estavam se desintegrando. Com isso, cobrimos uma lacuna grande sobre o que já havia sobre a população infantil e juvenil no Brasil.

Quando, em 2002, sou incorporada ao corpo docente da PUC-Rio, no Departamento de Serviço Social, trago a experiência e parte do acervo do Centro, agora com um viés fortemente internacional – o Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância — CIESPI/PUC-Rio. Assim, nos tornamos referência em vários temas relacionados a essa população. A conexão com a rua, ou a questão da situação de rua, é um deles.

Por que você escolheu esse grupo, em específico? O que mais te sensibilizou nas questões da criança e do adolescente?

Desde muito jovem, tive a oportunidade de entrar em algumas instituições com centenas de crianças que não sabiam onde seus pais sequer estavam e interagir com elas diretamente, como voluntária. Nesse sentido, eu era uma adolescente em contato com outras crianças e adolescentes em situações muito diferentes da minha. Venho de uma família grande e que também tinha muitas dificuldades, no entanto, em comparação com o que aquelas crianças passavam, eu me sentia extremamente privilegiada.

Outro marco importante foi a minha volta do mestrado na Universidade de Chicago, onde tive a oportunidade de me especializar e aprofundar em pesquisa e políticas públicas. Saí um pouco da psicologia, que foi minha primeira formação, para entrar muito mais no campo da pesquisa social. Esse campo foi onde me situei realmente, com foco sobre as políticas públicas dirigidas á população infantil e juvenil e muito conectada internacionalmente. Ao longo de minha trajetória, venho trabalhando com pesquisas qualitativas e quantitativas, sobretudo com pesquisas que se importassem com o atendimento, com os serviços, com as propostas de políticas públicas, com a legislação etc.

Desde o início tinha consciência de que precisávamos entender o que já havia sido produzido no país. Nos anos 1980, não estudávamos os pesquisadores brasileiros, pensando a criança brasileira. Não é que não existissem, mas eles não estavam nas bibliografias dos nossos cursos. A primeira proposta, portanto, foi fazer com que a academia entrasse no debate público, tendo como base a produção nacional.

Penso que essa produção é importante em duas direções: primeiro, que seja útil como subsídio as políticas públicas, para que se possa avaliar como está a política de atendimento à criança e ao adolescente em situação de rua, por exemplo (quais são os problemas, quais são as prioridades, o que tem sido feito etc); segundo, ela nos permite identificar as lacunas; quais são as áreas que não estão sendo discutidas. Aqui que se pode fazer um elo com a questão do ensino, inclusive, porque orientamos um grande número de estudantes de graduação, mestrado e doutorado, que são profissionais a frente de diversos campos da Assistência Social.  

 

Que dificuldades e ausências para as questões da criança e do adolescente você consegue prever para as próximas gerações?  

Os indicadores sócio-econômicos podem nos dar bons indicativos sobre o presente e algumas perspectivas para o futuro. Nas últimas 2 décadas tivemos avanços importantes, como a redução do trabalho infantil e da mortalidade, maior acesso à educação. No entanto, prevemos que, devido ao grande ataque à educação por parte do atual governo, pode-se prever impactos significativos no Brasil, sobre a qualidade e o acesso à educação. Os elevados índices de pobreza e desigualdade têm levado o país a enormes perdas de sua população infantil e juvenil.

As altas taxas de desemprego são um outro fator que afeta a população jovem, com grande impacto sobre os segmentos de baixa renda. Afeta, porém, a todos. Os jovens que se formam nas melhores escolas de classe média e alta, começam a partir; vão trabalhar em outros países. Dessa forma, perdemos uma população fundamental para a construção do país nas próximas décadas, que são os universitários. E o Brasil certamente não atrai as elites de outros países. É uma grande perda para o Brasil..

Uma outra tendência, no Brasil e em alguns outros países, é a atual tendência a governos de extrema-direita. São governos com ideias e práticas conservadoras, avessos aos direitos humanos. Nesse sentido, há a tentativa de dificultar ou mesmo impedir as práticas de associação e de ações coletivas, de paridade entre governo e sociedade civil, que caracterizam uma democracia. Governos como o nosso, no presente, que impossibilitam a ação dos movimentos sociais; estes terão que criar boas estratégias para conseguirem resistir.

Isso terá um impacto óbvio: um menor acesso da população aos espaços de negociação política. Essa é uma característica dos governos autoritários e podemos ver que isto já está acontecendo. Ao mesmo tempo, podemos observar uma crescente mobilização de forças de resistência. Queria chamar atenção para os movimentos sociais de jovens e adolescentes, inclusive crianças, que até pouco tempo eram invisibilizados: como por exemplo, o Movimento Ocupa Escola, no Brasil; movimentos internacionais como o dos jovens estadunidenses que vêm se articulando em resposta aos homicídios nas escolas e se mobilizando contra a poderosa associação das armas no país com interessante sucesso (NRA - National Rifle Association); os movimentos ecológicos, crescendo em torno de uma questão ambiental que precisa ser revista, com evidentes retrocessos no Brasil.

Vivemos uma época também de intensa comunicação virtual, com ênfase significativa no individualismo. É muito fácil o jovem, ou mesmo uma criança se encerrar no seu celular, no seu Ipad ou no seu computador. Se não há mediação, essa geração fica muito autônoma, mas no sentido não-solidário. O fácil e rápido acesso virtual lhe dá a impressão de ser muito querido e de estar em contato com o mundo todo, mas no fundo o que há é uma profunda solidão.

Não sou pessimista ao ponto de dizer que é isso que irá predominar, já que é da natureza humana a sociabilidade, mas há alguns elementos básicos que são importantes desde o nascimento para desenvolver a sociabilidades, o desejo e a habilidade de estar em contato com o outro. São muitas as possibilidades, mas também os desafios. Um deles é o de alcançar as crianças e os adolescentes, mostrando outras possibilidades de se conectar com o mundo real, que — muito além do virtual — e de se importar com os outros. Este é um desafio importante desse milênio.

 

Irene Rizzini é professora do Departamento de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Diretora do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (CIESPI)