Rocinha

ROCINHA

A opção pela cartografia parte da intenção de apresentar microcosmos que permitam a visualização de questões fundamentais para o desenvolvimento integral das crianças de 0 a 6 anos através de cotidianos e estruturas locais.
A proposta de lâminas cartográficas remete à ideia de um atlas onde os diferentes temas, relativos a um espaço geográfico habitado, abordem a dimensão e a transversalidade de ações e políticas públicas a serem implantadas na direção de uma qualidade de vida digna. Nosso foco é o desenvolvimento local buscando incentivar iniciativas comunitárias de atenção às crianças. Iniciamos pela Rocinha.

A Rocinha foi definida como primeiro campo de observação e estudo, no que diz respeito às prioridades com relação à primeira infância, devido a sua dimensão e complexidade de cidade, e pelo fato do CIESPI desenvolver, desde 2002, diversos projetos e práticas em parceria com instituições e representações locais.

Um Conselho Consultivo Comunitário da Rocinha, constituído por representantes do Fórum Cultural da Rocinha - articuladores comunitários, educadores e coordenadores de espaços de educação e jovens atuantes em projetos de saúde e cultura - foi formado para debater e construir essa ferramenta junto à equipe do CIESPI. Objetivando ampliar o debate, foram convidados representantes de outras comunidades.

O principal objetivo dessa iniciativa é fortalecer a rede local de atenção e proteção às crianças na primeira infância. Nesse sentido, consideramos importantes os seguintes pontos:


> Subsidiar gestores e demais atores-chave na implementação de políticas e ações que beneficiem as crianças na primeira infância;

> Subsidiar organizações e lideranças comunitárias da Rocinha no encaminhamento de propostas e ações;

> Estimular o olhar sobre a comunidade como campo rico em práticas que por si mesmas apontam caminhos para gerar mudanças;

> Identificar lideranças comunitárias voltadas para a primeira infância, reconhecidas pelos moradores como positivas para a comunidade;

> Incluir as vozes locais como importante instrumento para a priorização e monitoramento de ações voltadas para as crianças;

> Estimular iniciativas similares em outras comunidades.

ESPAÇOS ABERTOS

Por sua dimensão de cidade e dificuldade de locomoção devido a distâncias atravessadas por becos, escadarias, lajes, vielas, estrada e ruas principais, são inúmeros os espaços abertos que se tornam lugares de brincadeiras e convivências. Nesse conjunto encontram-se quadras, pequenas praças, terrenos de terra batida, pátios de escolas, pista de skate, clareiras na mata, como também os espaços ao ar livre delimitados pelo encontro de ruas e becos, por uma pedra ou árvore. Os critérios utilizados para a apresentação desses espaços partem das diferentes formas como os moradores, em especial as crianças, os utilizam.

Para além dos espaços institucionalizados voltados para a criança em seus primeiros anos de vida, os espaços abertos próximos às moradias, são fundamentais para seu desenvolvimento, pois favorecem a convivência comunitária, familiar e transgeracional, e potencializa o contato com a cultura local.
Uma das questões que sempre acompanha os projetos de espaços abertos ao público é a sua manutenção permanente. Muitas vezes são moradores voluntários ou articuladores culturais que se colocam disponíveis para a manutenção e a realização de propostas esportivas e de lazer. Faz-se importante investir na manutenção física e cultural para que esta não seja apenas voluntária.
Outra questão aponta que os espaços abertos de convivência na Rocinha reconhecíveis como praças, quadras, dentre outros, não suprem a demanda local. Ocorre que outras áreas de convivência, não visíveis aos visitantes ou passantes pelas ruas principais, se criam, se “conservam” e se “estabelecem” como pontos de encontro, convivências e brincadeiras sendo. Espaços, com frequência, não adequados e seguros.

Ao invés de altos investimentos em poucas construções e amplos espaços localizados em áreas “visitáveis”, sugere-se investimento em espaços de simplicidade, com uma linguagem mais local, e de pouco custo que incluíssem brinquedos feitos por artesãos ou grafiteiros sem um padrão a ser replicado; brinquedos inspirados em rodas, giros, balançar; ou simplesmente mantendo o campo de futebol, que surge improvisado, colocando luz, garantindo a coleta de lixo e viabilizando sua manutenção, necessários como em qualquer parte da cidade.

Os pontos indicados como espaços abertos de convivência, podem ser potencializados como espaços educação, esporte, saúde e arte, entendendo-os como locais de convergência de direitos e com amplos potenciais de comunicação, mediação, transversalidade, monitoramento e controle no processo de implementação de políticas. Essa visão implica em gestões participativas, considerando a organicidade da comunidade, com orientação de compartilhamento com articuladores locais das áreas de saúde, educação, cultura e esporte se constituindo como consultores de um processo colaborativo.

CRÉDITOS

MAPAS
O layout do mapa da Rocinha utilizado como base foi criado pela Fundação Centro de Defesa dos Direitos Humanos Bento Rubião, no âmbito do projeto de regularização fundiária "Rocinha Mais Legal". (2008)

FOTOS
As imagens fotográficas dos espaços abertos da Rocinha foram feitas pela equipe do Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha. As fotos que ilustram os desafios fazem parte do acervo do projeto Improving the life chances of low-income young children in urban Brazil - estudo em duas comunidades do RJ sobre as condições de vida de crianças nos primeiros anos de vida, desenvolvido pelo CIESPI em 2010.